Pode ver esse brilho
do sol e a poeira levantando lentamente do chão? Consegue ver a rua vazia em
meio à poeira diante dos seus olhos e ouvir o vento que você não sente? Você
percebe o sol escaldante sobre sua pele e um frio acolhedor que envolve sua
garganta.
Você sabe, tudo isso
possui uma grande carga sentimental, então desvia o olhar para não se lembrar
de quando éramos crianças. Você tenta, mas não consegue, e as memórias de
quando éramos crianças começam a surgir… e lhe vem à
memória a época em que brincávamos e corríamos inocentemente sem preocupações,
e as lágrimas começam a correr.
Lembra-se dos amores
de criança e das tardes que conversávamos debaixo daquela árvore? Eu sei que
sim. Eu notei o seu olhar enquanto tentava escrever, um olhar diferente quando
viu a luz do sol que entrava pela janela, iluminava o seu caderno e projetava a
sombra da caneta… eu sei, isso fez lembrar-se das nossas cartas.
Tantas vezes vi você
chorar e tantas vezes vi seus olhos brilharem apenas por uma singela borboleta
a voar. Onde foi parar a nossa simplicidade?
Neste lugar tudo é
tão nostálgico! Faz-me lembrar das tantas vezes em que brincávamos debaixo do
sol, dos lugares que explorávamos só por diversão. Ainda me lembro daquele dia
em que caminhávamos pela nossa pequena floresta, você tropeçou, eu tentei
segurar, nos beijamos, e você chorou se sentindo culpada.
Lembranças ternas da
simplicidade de uma criança.
Estou vendo que seus
olhos estão olhando para longe, está contemplando além deste lugar, sei no que
está pensando! Eu também estava lá.
Tudo era tão simples
e inocente, não nos preocupávamos com a tecnologia e nem com o que acontecia
fora do nosso mundinho de criança. Sentamos naquele chão sujo e juntos ficamos
a olhar para o nada, conversando sobre qualquer coisa e atirando pedras para
lugar nem um. Víamos a terra seca e avermelhada subir, e olhando para cima
vimos uma escura nuvem de chuva e o vento soprava forte alvoroçando nossos
cabelos. Deitávamo-nos sobre o chão e sorriamos. Era uma sensação boa, e
ficamos olhando para o céu até a chuva cair, gostávamos daquele contraste e das
aves a voar. Quando a chuva caiu, passamos a pular e dançar, levantando as mãos
para o céu tentando tocar as nuvens enquanto as gotas de chuva lavavam nossos
rostos e pulávamos em meio à lama, sorrindo, sem nos importar com nada, apenas
um com o outro e querendo que aquele momento nunca terminasse.
Tempos incríveis
aqueles. Lembra-se de que íamos visitar um ao outro, mesmo que eu morasse em
frente à sua casa? Eu corria tentando pegar você, nos deitávamos no chão do
quarto só para sentir o quanto estava frio, olhávamos para o teto e ficávamos
imaginando mil e uma coisas. Inventávamos histórias e as vivíamos por toda uma
tarde.
Gostávamos de pegar
os CD’s dos nossos pais e ficávamos ouvindo e cantando enquanto conversávamos,
brincávamos e brigávamos. Brigas que duravam no máximo 10 minutos, pois não
aguentávamos viver longe um do outro.
Fomos juntos
crescendo, nos separamos, nos reencontramos, e voltamos a conversar, dessa vez
sobre o tempo que passou, a lembrar com grande saudade do tempo em que nossas
vidas eram simples e comparando em como mudou. Agora inúmeros afazeres nos
separam mesmo estando perto.
A tristeza que sinto
é que com o amadurecimento que o tempo nos trouxe, ficamos mais imaturos que
crianças, esquecemos de olhar para as pequenas coisas que tanto nos encantavam,
perdemos o sorriso e a singeleza de uma criança e desaprendemos a perdoar. Um
simples desentendimento nos separou, mas os tempos são outros e seu coração
mudou. Já não sabe mais perdoar e não se importa mais com o sentimento dos
outros, e nem mais com os seus. Ficou fria e amargurada e perdeu aquele brilho
no olhar.
Você se lembra? Eu
sei que consegue lembrar-se de tudo isso. Tire as mãos do rosto, eu vi suas
lágrimas, como já vi várias outras vezes. O nosso tempo passa como em um
relógio de areia, um relógio de areia quebrado. Não se esqueça de tudo que já
passamos, por favor, eu ainda estou aqui esperando.
Eu somente lhe peço:
volte a olhar com os olhos de uma criança e redescubra sua simplicidade, não
vale a pena viver se não for assim. Lembre-se de como é viver como uma criança,
sem rancores, sem malícia, sem maldade, apenas a simplicidade com que tudo se
vê, o amor, a singeleza, a beleza, e dessa forma apreciar a vida.
Dã Iakob.